sexta-feira, 31 de março de 2017

da fuga

E uma fome de aceitá-la por inteiro, porque a imaginação é o mais cretino dos dons humanos, a fuga mais ardilosa da realidade. E ela adorava fugir.

Alex Sens in: O frágil toque dos mutilados. Ed. Autêntica.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

da intensidade

E acontece o mesmo quando estou alegre ou triste. Tenho medo de não aguentar a intensidade de tudo. Minhas lágrimas já devem estar confusas de tanto serem usadas para funções diferentes em situações semelhantes: rua bonita - chorar de alegria ou de tristeza? Filme bonito - alegria ou tristeza? A beleza me confunde. Audrey Hepburn, por exemplo. Toda vez que a vejo, quero ser exatamente como ela, e não sei se sinto alegria porque a vida é tão generosa ou se me entristeço. De que adianta a generosidade da beleza? O que posso fazer com ela?

Noemi Jaffe in: Írisz: As Orquídeas (Cia. das Letras).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

das ausências, em ti, em mim

Mas, desde que você foi foi embora e, principalmente, desde que recebi sua carta, não importam mais as ausências que você sente, elas não estão mais comigo. O que conta agora é a ausência inesperada que causa em mim.

Noemi Jaffe in: Írisz: As Orquídeas (Cia. das Letras).

do que não se diz

(...) aprendi a conhecer as pessoas pelo que elas não dizem. Ouço e vejo nos gestos dela o que ela cala e que para mim é algo assim: não sou esse ácido nem essa pedra; minha dureza comunica sinais vagos, em volume muito baixo e, se alguém quiser escutar, terá que apurar os ouvidos, encostar a cabeça no chão, nas paredes, porque eu não vou fazer o menor esforço para gritar ou ser ouvida; mas estou falando, aqui, sob os escombros do silêncio, baixinho, uma palavra; um tipo de ai. Eu ouço esse ai e é nele que reconheço que a separação entre vocês, a insistência obstinada no vazio que ela criou ao redor, escondem um tipo de arrependimento. Como se ela soubesse que você não foi o único culpado e essa fosse a maior dor: saber que ela poderia ter feito algo para você ficar.

Noemi Jaffe in: Írisz: As Orquídeas (Cia. das Letras).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

da poesia

Efraim Medina Reyes in: Pistoleiros/Putas e Dementes. Ed. Garamond.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

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Efraim Medina Reyes in: Pistoleiros/Putas e Dementes. Ed. Garamond.

da paixão

A paixão nasce de um encontro casual, sempre assimétrico. Um só é aprisionado por um detalhe que vai condensar – durante um tempo – o conjunto das causas do desejo.
O apaixonado, aprisionado pelo movimento de uma mão ou de um olhar, se verá amarrado àquilo que o apaixona, àquela beleza convulsiva, “erótica-velada, explosiva-fixa, mágica-circunstancial”. Que André Breton evoca em L’Amour fou.

HASSOUN, J. A crueldade melancólica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Da falta

Ninguém é tão presente pra nós quanto aqueles que nos faltam, eu já me dera conta.

Marcelo Backes in: A casa cai. Companhia das Letras.

Preso-livre ou livre-preso

Imre, onde você estiver, preso-livre ou livre-preso, na rua, na prisão, no quarto de outra mulher, numa casa abandonada no meio de alguma estrada, na Áustria, para onde você não fugiria, porque não suporta nem pronunciar a palavra fuga (que não precisa ser ruim, porque fugir é o lugar do homem e até ficar tantas vezes é fugir), porque para você as palavras sempre querem dizer só uma coisa e você não percebe que elas querem dizer muitas - me ouça, do jeito que você conseguir: com as mãos, com os olhos, com os dedos. A palavra que eu te disse quando não conseguia decidir se vinha ou não para cá foi szia, aquela mesma que eu sempre falava e você fingia que ficava conspícuo mas eu percebia que você estava rindo disfarçando, do mesmo jeito que você ria quando eu te beijava nos dedos, no nariz, nos lóbulos, nos fios dos cabelos, no osso ilíaco e você ficava envergonhado mas também feliz. Essa palavra significa tanto "oi" como "tchau". Eu disse szia porque, de uma forma que nem eu sabia muito bem qual era, queria que você me ajudasse a decidir. Mas você não entendeu daquela vez e nem entende agora; você decidiu por mim que aquilo era "tchau" e praticamente me expulsou; resolveu no meu lugar... (...) Me ouça, onde quer que você esteja, (...) que, se um dia escrevessem alguma coisa, seria: "Dessa vez eu não me atrasei", porque você se atrasava para tudo e eu nunca; foi por isso que eu disse szia. Não podia me atrasar ao decidir se ficava ou ia embora, depois que eles chegaram e eu vi que você iria ficar até ser preso-livre...

Noemi Jaffe in: Írisz: As Orquídeas (Cia. das Letras).

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Do significado


Mas as palavras carregam coisas que ficam além do que elas dizem, num lugar onde está o que elas querem dizer. Eu sinto como se elas guardassem uma origem perdida. Então quero, desse jeito teimoso que você, Martim e todos recriminam, criar um vínculo entre aquilo que a palavra foi um dia e o significado de agora. Parece que, desse jeito, as palavras e as coisas voltam a ter algum sentido maior. (...) me faz pensar em outras palavras e frases vazias que nós dissemos um para o outro, como: "Não concordo"; "Você não me compreende"; "Nós realmente não vivemos no mesmo mundo". Essas palavras não dizem nada e só substituem aquilo que realmente gostariam de dizer, que é: "Por favor, fique imediatamente já comigo para sempre e não se meta a fazer o que você acha que tem que ser feito, porque nunca há nada a ser feito e o que quer que você faça, na situação que se armou, é inútil e só vai servir à sua vaidade ou ao seu orgulho"; "Venha comigo, Imre".

Noemi Jaffe in: Írisz: As Orquídeas (Cia. das Letras).

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Beatriz Bracher in: Anatomia do paraíso. Editora 34, p. 38. - Uma das leituras do momento.

da vida, da arte


Philip Roth in: Os fatos, A autobiografia de um romancista. Companhia das Letras, p. 173.

das coisas

As coisas nunca são só o que parecem. E nunca são só acerca de ti.

Inês Pedrosa in: Dentro de ti ver o mar.

das promessas

(...) com suas promessas nunca alcançáveis, com suas promessas que estavam sempre um passo adiante do alcance das nossas mãos, como a cenoura que pende da ponta de uma vara e está sempre um passo adiante do focinho do burro e este, por não se dar conta de que a vara está presa às suas costas continua sempre a caminhar, certo de que está a ponto de alcançá-lo e saciar seu desejo.

Luis S. Krausz in: Bazar Paraná. Editora Benvirá.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

sem acreditar

- Você acha que vive melhor?
- Merda por merda, acho que eu ainda prefiro a minha.
- Você encontra algum prazer nas coisas que faz, você está satisfeito consigo mesmo, era isso que você queria?
- Você sabe o que eu queria, Lena - disse ele, olhando-a significativamente.
- Não me venha com demagogia. Se você queria tanto, por que se esforçou tanto para me perder?
- Eu sei que você não acredita, mas eu te amei do modo mais sensível.

(Maria Adelaide Amaral in: Aos meus amigos. Ed. Globo, p. 142)

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